Augusto no Palatino: uma escolha ideológica

Quando Octávio, de regresso da sua vitória sobre Cleópatra e Marco António (29 a.C.), escolheu o Palatino como residência permanente, não construiu um novo palácio. Adquiriu e ampliou a casa de Hortênsio, o grande rival oratório de Cícero, situada na vertente oriental do Palatino com vista para o Foro Romano.

A escolha foi deliberadamente ideológica: Augusto pretendia apresentar-se como um cidadão romano entre os cidadãos, e não como um monarca oriental. A sua casa era uma domus de proporções razoáveis — certamente luxuosa, mas comparável às residências dos senadores mais ricos, não a um palácio real. Suetónio recorda que Augusto dormiu na mesma cama durante décadas, vestia-se frequentemente com tecidos tecidos pela esposa ou pelas filhas e não admitia ostentosas exibições de ouro maciço.

Esta estudada sobriedade reflectia-se na arquitectura: sem pronaos monumental, sem vestíbulo imperial. A casa articulava-se em quartos de dimensões normais, acessíveis por uma modesta escada.

A Casa de Lívia: uma questão de identidade

A Casa de Lívia é adjacente à Casa de Augusto e identificada tradicionalmente como a morada da esposa do primeiro imperador. Esta identificação assenta numa descoberta do século XIX: uma canalização de chumbo com a inscrição Iulia Augusta, o nome que Lívia adoptou após a adopção testamentária por Augusto (14 d.C.).

Contudo, muitos arqueólogos modernos consideram que a Casa de Lívia era na realidade parte da própria residência de Augusto — possivelmente os aposentos mais antigos do complexo, anteriores à remodelação que originou a Casa de Augusto tal como a conhecemos. A inscrição Iulia Augusta pode referir-se a propriedades de Lívia no período posterior à morte do marido.

Em todo o caso, as duas casas formam uma unidade arquitectónica e decorativa coerente, com frescos estilística e cronologicamente homogéneos, datados do segundo estilo pompeiano (ca. 40–10 a.C.).

O segundo estilo pompeiano: a pintura como ilusão arquitectónica

Os frescos de ambas as casas pertencem ao chamado segundo estilo pompeiano, uma tradição pictórica desenvolvida no século I a.C. que finge dissolver a parede pintando-a como uma janela aberta para espaços arquitectónicos ou paisagísticos.

O princípio do segundo estilo é a perspectiva ilusionística: colunas, pilastras, pódios, entablamentos e arquitecturas fantásticas são pintados com tal mestria perspectiva que a parede parece transparente — uma janela para salas, pórticos, jardins ou teatros imaginários.

Esta tradição era influenciada pela scaenographia — a pintura cénica dos teatros gregos e helenísticos — e pelos ambientes da Grécia e da Ásia Menor que Augusto e o seu círculo conheceram durante as campanhas militares. Transpor essa sofisticação para a arquitectura romana foi um gesto cultural de afirmação: o Palatino de Augusto olhava para o Oriente helenístico sem abandonar a sobriedade romana.

As salas da Casa de Augusto

A Casa de Augusto articula-se numa série de quartos decorados, quatro dos quais são visitáveis. Cada sala tem um tema pictórico coerente que deu origem a designações convencionais modernas.

A Sala das Máscaras: o nome deriva dos medalhões em relevo pintado com máscaras teatrais que decoram as paredes. Estas máscaras — de tragédia, de comédia, de sátiro — são pintadas sobre fundo vermelho e emolduradas por colunatas de extraordinária requinte. O pavimento é em opus sectile de mármores policromos. Esta sala é considerada o espaço mais valioso de toda a casa.

A Sala dos Pinheiros: as paredes mostram vistas paisagísticas com pinheiros sobre fundo negro, um dos raríssimos exemplos de paisagem pura na pintura romana. Os pinheiros emergem de um terreno baixo com pequenas figuras e construções ao fundo.

O Gabinete de Augusto: um pequeno cubículo com decoração de painéis geométricos coloridos, provavelmente o local de trabalho privado do imperador. Suetónio conta que Augusto tinha um pequeno escritório no piso superior — ad summos clivos — onde se recolhia para trabalhar; o quarto descoberto não corresponde exactamente à descrição, mas é o seu candidato mais provável.

A Sala dos Frescos de Representação: a entrada oficial, com paredes de falsas colunatas com vistas abertas.

Os frescos da Casa de Lívia

A Casa de Lívia conserva frescos de qualidade igualmente excepcional, distribuídos por três salas principais.

O Tablino (sala de representação): as paredes mostram grandes painéis com episódios mitológicos — entre os quais se reconhecem Io vigiada por Argus e Polifemo e Galateia — emoldurados por arquitecturas pintadas e cornijas elaboradas. As cores dominantes são o vermelho pompeiano, o amarelo ocre e o branco. Os painéis figurativos são de pequeno formato e inseridos em composições arquitectónicas mais amplas.

O Triclínio: a obra-prima da casa. As paredes mostram um sistema complexo de galerias de vários pisos com varandas, entablamentos salientes e fragmentos de paisagem vistos através de aberturas perspécticas sucessivas. A sensação de profundidade é extraordinária: o espectador parece debruçado sobre uma loggia que se abre para outras loggias.

O Cubículo da esquerda: uma sala mais pequena com fundo amarelo e arquitecturas delicadas, mais suave na paleta do que o Triclínio.

A técnica: fresco e pigmentos

Os frescos de ambas as casas são executados a fresco — com pigmentos aplicados directamente sobre o reboco húmido — uma técnica que garante durabilidade milenar porque os pigmentos se ligam quimicamente ao carbonato de cálcio do reboco durante a presa.

Os pigmentos utilizados eram dispendiosos e preciosos:

  • O vermelho pompeiano era obtido de cinábrio (minium), sulfureto de mercúrio extraído principalmente em Espanha. Era o pigmento mais caro da Antiguidade.
  • O azul egípcio (frita de silicato de cálcio e cobre) era produzido artificialmente desde o III milénio a.C.
  • O amarelo provinha de ocre (óxido de ferro hidratado) de diversas pedreiras italianas.
  • O verde era principalmente malaquite ou terras verdes.
  • O negro era obtido de fuligem, marfim queimado ou ossos calcinados.

A aplicação exigia uma sequência rigorosa: o reboco prepara-se em várias camadas; a última camada (arriccio) deve permanecer húmida o tempo necessário para o artista completar cada giornata (jornada de trabalho). As juntas entre as giornate são frequentemente visíveis com luz rasante.

A história do edifício: o raio de Augusto

Suetónio transmite um episódio significativo: depois de um raio atingir uma parte do Palatino, Augusto consultou os arúspices e ofereceu ao povo o acesso ao local atingido, pois o raio era interpretado como sinal de predestinação religiosa. Mais significativo ainda, Augusto cedeu ao deus Apolo o piso superior da sua própria casa, recebido em sonho como vontade divina, integrando-o no complexo do Templo de Apolo Palatino (28 a.C.).

Este gesto — transformar parte da própria casa privada num santuário público — foi um dos actos simbolicamente mais eficazes do Principado: o divino e o privado fundiam-se na pessoa do princeps.

História das escavações e da conservação

A Casa de Augusto foi descoberta na segunda metade do século XIX durante as primeiras grandes campanhas de escavação do Palatino. Os frescos, num estado de conservação surpreendente, foram imediatamente reconhecidos como excepcionais. Alguns painéis foram destacados e transferidos para o Museo Nazionale Romano por razões de conservação.

Campanhas de restauro sistemático nos anos 1990–2000 permitiram reabrir as duas casas ao público em condições controladas: a humidade, a temperatura e o número de visitantes são monitorizados. O acesso é normalmente limitado a grupos pequenos com reserva prévia, para minimizar o impacto da respiração humana sobre os rebocos.

Como visitar as duas casas hoje

A Casa de Augusto e a Casa de Lívia encontram-se no Palatino, incluído no bilhete combinado Coliseu–Foro Romano–Palatino.

  • O acesso a ambas as casas é limitado e sujeito a marcação separada: verificar disponibilidade no sítio oficial da Soprintendenza
  • As visitas realizam-se em grupos pequenos (normalmente 20–30 pessoas)
  • A fotografia é geralmente permitida sem flash
  • As visitas guiadas pagas oferecem explicações aprofundadas sobre a técnica pictórica
  • A Casa de Lívia está aberta com mais regularidade do que a Casa de Augusto (que tem períodos de encerramento para restauro)

A visita às duas casas demora aproximadamente 45–60 minutos e deve ser planeada como parte de um itinerário mais amplo no Palatino.

Visite com motorista privado

A Casa de Augusto e a Casa de Lívia encontram-se no Palatino, no combinado Coliseu–Foro–Palatino.

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Perguntas frequentes

Que idade têm os frescos? Os frescos datam de aproximadamente 30–20 a.C. — ou seja, têm cerca de 2.050 anos. Estão entre os ciclos pictóricos romanos in situ mais antigos.

É necessária marcação prévia? Para a Casa de Augusto quase sempre sim. Para a Casa de Lívia varia conforme a época. Consultar o sítio da Soprintendenza antes da visita.

Os frescos são originais? Em grande parte sim: a maioria dos frescos visíveis nas salas está in situ — ainda na parede original. Apenas alguns painéis secundários foram destacados por razões de conservação e encontram-se no Museo Nazionale Romano.

Por que razão os frescos se conservaram tão bem? O sítio esteve coberto por entulho e depois pelos Jardins Farnese durante cerca de 1.500 anos. O enterramento progressivo manteve temperatura e humidade constantes — condições ideais para a conservação dos rebocos pintados.

Qual é a diferença entre a Casa de Augusto e a Casa de Lívia? São duas casas adjacentes, provavelmente formando um único complexo na Antiguidade. A Casa de Lívia é identificada tradicionalmente como o apartamento da esposa; a Casa de Augusto como o núcleo da residência imperial.

Artigo n.º 48 — TIER S — MON-03 Foro Romano + Palatino Tipo: HISTÓRIA Palavras: ~2.400