O Coliseu como símbolo: uma história de projecções

O Coliseu real — um edifício de espectáculos do século I — foi construído no imaginário cultural moderno como algo muito diferente: um espaço sagrado do martírio cristão, um teatro do horror pagão, um emblema da grandeza imperial, um aviso sobre o declínio das civilizações. Nenhuma destas imagens é inteiramente historicamente exacta. Todas são poderosas.

A primeira transformação deu-se já na Idade Média: o Coliseu, abandonado, tornou-se na narrativa cristã o lugar onde os mártires morreram pela fé — uma tradição consolidada nos séculos XVI–XVII apesar da ausência de provas históricas directas de que os cristãos fossem sistematicamente executados no Coliseu.

A literatura: do Grand Tour ao Romantismo

Byron e Shelley: o Coliseu como ruína sublime

Os poetas românticos ingleses que visitaram Roma no início do século XIX transformaram o Coliseu numa ícone da sublimidade romântica. Lord Byron, no Canto IV de Childe Harold's Pilgrimage (1818), escreveu alguns dos versos mais citados sobre a arena.

Para Byron, o Coliseu era um aviso sobre a vaidade do poder humano — o lugar onde o império mais poderoso da história se tinha reduzido a pó.

Percy Bysshe Shelley, que visitou o Coliseu em 1819 com a sua esposa Mary, escreveu um fragmento inacabado — The Coliseum — no qual um velho cego e a sua filha entram no monumento e reflectem sobre a natureza da ruína e do tempo. O Coliseu de Shelley é um lugar de contemplação filosófica, não de sangue.

Henry James e Hawthorne: o Coliseu do turismo oitocentista

Nathaniel Hawthorne, no seu romance The Marble Faun (1860), coloca uma cena fundamental no Coliseu de noite — um dos lugares-comuns do turismo romântico do século XIX. O Coliseu nocturno, com as suas sombras e o luar sobre as ruínas, tornou-se o cenário preferido para encontros misteriosos na ficção vitoriana.

Henry James visitou Roma várias vezes e deixou em Daisy Miller (1878) a cena do Coliseu mais famosa da ficção anglófona: o protagonista encontra Daisy a passear no monumento de noite, expondo-se à "febre romana" (malária). A cena — situada no Coliseu como lugar de perigo exótico — resume toda a ambivalência do turismo oitocentista em relação a Roma.

O cinema: do nascimento do filme mudo a Ridley Scott

As origens: Cabiria (1914)

O cinema mudo italiano descobriu imediatamente o potencial espectacular da Roma antiga. Cabiria de Giovanni Pastrone (1914) — com a sua reconstrução monumental de Cartago e da Roma púnica — estabeleceu o modelo do épico histórico que dominaria o género durante um século. O Coliseu não está em Cabiria, mas a estética que o filme estabeleceu — a grandiosidade arquitectónica como ferramenta narrativa — determinou a sua representação cinematográfica futura.

Ben-Hur (1925 e 1959)

O Coliseu aparece em ambas as versões de Ben-Hur. A versão de 1959 com Charlton Heston continua a ser um dos filmes mais vistos na história do cinema. A famosa corrida de carruagens — tecnicamente situada num circo, não no Coliseu — é frequentemente confundida no imaginário popular com a própria arena do Coliseu.

O Ben-Hur de 1959 consolidou a imagem do Coliseu como lugar de violência espectacular em oposição aos valores cristãos emergentes — uma leitura teológico-política com poucos fundamentos históricos mas enorme impacto cultural.

Quo Vadis? (1951)

O filme de Mervyn LeRoy com Robert Taylor e Deborah Kerr levou ao grande público internacional a tradição do martírio cristão no Coliseu. A cena em que os cristãos são atirados aos leões na arena — historicamente duvidosa — tornou-se um dos estereótipos mais duradouros sobre o monumento.

Gladiador (2000)

O filme de Ridley Scott com Russell Crowe é provavelmente a representação cinematográfica mais influente do Coliseu nos últimos cinquenta anos. Embora historicamente impreciso em muitos detalhes (a Roma de Marco Aurélio era muito diferente da arena de Gladiador), o filme teve um impacto extraordinário no interesse pela Roma antiga.

Os efeitos visuais de Gladiador — que reconstituíam um Coliseu intacto e povoado por 50.000 espectadores com CGI — estabeleceram a visualização de referência para toda uma geração posterior. "O meu nome é Máximo Décimo Meridio" tornou-se um meme global.

Curiosidade: o Coliseu no cinema italiano

Os realizadores italianos do pós-guerra usaram o Coliseu de forma muito diferente de Hollywood. Federico Fellini insere-o em La dolce vita (1960) não como arena de sangue mas como cenário irónico da Roma moderna — turistas, luzes, scooters. Nanni Moretti em Caro Diario (1993) passa por ele de Vespa e torna-o num lugar de reflexão quotidiana.

Televisão e videojogos

As séries televisivas do século XXI — de Rome (HBO, 2005) a Domina (Sky Atlantic, 2021) — continuaram a usar o Coliseu como lugar narrativo. Rome em particular, com a sua atenção à vida quotidiana romana, ofereceu uma representação mais matizada da arena do que os épicos cinematográficos.

No campo dos videojogos, Assassin's Creed: Brotherhood (2010) tornou o Coliseu renascentista totalmente explorável em cada detalhe — e introduziu uma geração de jogadores na arquitectura do monumento.

A literatura contemporânea

O Coliseu continua a fascinar os narradores contemporâneos. Donna Tartt visita-o brevemente em O Pintassilgo (2013). A literatura italiana de viagens — de Tiziano Scarpa a Erri De Luca — devolve um Coliseu mais quotidiano e meditativo do que as fantasias do norte da Europa e da América.

Visitá-lo depois de o ter imaginado

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Perguntas frequentes

Os cristãos foram realmente martirizado no Coliseu? A tradição histórica é incerta. As fontes antigas não confirmam execuções sistemáticas de cristãos no Coliseu como local específico. O Vaticano reconheceu oficialmente o monumento como lugar de martírio e aí continuam a realizar-se procissões da Via Sacra.

O filme Gladiador é historicamente exacto? Em muitos aspectos, não. Marco Aurélio não morreu às mãos de Cómodo; Cómodo não foi morto na arena; os combates de gladiadores já estavam em declínio no tempo de Marco Aurélio. O filme reflecte com exactidão algumas práticas gladiatórias gerais.

Que livro recomenda para compreender a Roma antiga antes de visitar o Coliseu? Imperium de Robert Harris (ficção) para uma introdução narrativa; SPQR de Mary Beard para a história crítica moderna definitiva da Roma antiga.

A cena de Ben-Hur foi filmada no verdadeiro Coliseu? Não. A corrida de carruagens da versão de 1959 foi filmada num cenário construído nos estúdios Cinecittà de Roma — um dos maiores cenários alguma vez construídos. Não existe circo no Coliseu; as corridas de carruagens realizavam-se no Circo Máximo.

Que outros filmes usam o Coliseu como localização? Férias em Roma (1953) com Audrey Hepburn, Três moedas na fonte (1954) e muitas produções posteriores usam-no como cenário reconhecível para cenas romanas.

Artigo n.º 15 — TIER S — MON-01 Coliseu Tipo: HISTÓRIA Palavras: ~2.400