Os Rostros: a tribuna dos oradores
Origem e nome
O nome Rostra — «bicos», «esporões» — deriva dos esporões dos navios capturados na batalha naval de Âncio (338 a.C.), quando Roma derrotou os Volscos e afixou as proas dos navios inimigos na tribuna dos comícios, doravante chamada rostra. Era uma forma de transformar a palavra em prolongamento da guerra: o lugar da persuasão política estava literalmente decorado com troféus militares.
A tribuna original situava-se no ângulo noroeste do Foro, em frente à Cúria. Júlio César deslocou-a para a sua posição actual — cerca de 15 metros mais a oeste, em frente ao Templo de Saturno e adjacente ao Arco de Septímio Severo — como parte da sua reorganização radical do Foro entre 44 a.C. e o ano da sua morte. Augusto completou o projecto.
A estrutura
Os Rostros cesarianos-augustanos eram uma plataforma rectangular elevada cerca de 3–4 metros acima do nível do Foro. A fachada anterior (lado do Foro) estava decorada com os rostra — os característicos bicos de bronze ou ferro dos esporões navais. Os visitantes que se aproximavam pelo Foro viam uma série de saliências metálicas ao longo da orla inferior da plataforma.
A tribuna tinha cerca de 24 metros de largura e era acessível por escadas na parte posterior. A superfície superior era o espaço onde o orador se posicionava, visível para toda a multidão reunida no Foro.
Em época imperial foi acrescentado um elemento adicional: uma tribuna curvilínea (Rostra Augusti ou Rostra Vandalica) na extremidade oposta do Foro, perto do Arco de Tito. Esta servia para a leitura dos edicta imperiais.
Discursos históricos
Os Rostros foram o palco dos momentos mais dramáticos da história republicana romana:
44 a.C.: após o assassínio de Júlio César nos Idos de Março, a sua cabeça e as suas mãos foram expostas nos Rostros — uma vingança póstuma dos conspiradores, transformada depois em catalisador do discurso fúnebre de Marco António («Amigos, romanos, concidadãos...»). Segundo Plutarco, a multidão que ouviu o discurso de António transformou-se numa multidão em tumulto.
43 a.C.: Cícero foi assassinado por ordem de Marco António. A sua cabeça e as suas mãos — as mesmas com que escrevera as Filípicas, os discursos que atacavam António — foram expostas nos Rostros. Diz-se que Fúlvia, esposa de António, espetou alfinetes na língua do grande orador. O gesto era simbólico: era uma resposta ao poder da palavra.
29 a.C.: Augusto celebrou o seu triplo triunfo. O cortejo triunfal passou em frente dos Rostros, ponto nodal do novo eixo visual do Foro.
Os Rostros hoje
A plataforma dos Rostros é hoje um dos elementos mais facilmente legíveis do Foro Romano. O podio rectangular em tijolo e opus incertum conserva-se em elevação vários metros. Os buracos circulares visíveis na fachada assinalam os pontos de fixação dos esporões navais — hoje perdidos, mas cuja presença está claramente documentada nas fontes antigas.
A Cúria Júlia: o Senado romano
O Senado na história de Roma
O Senado romano não era uma assembleia electiva — os seus 600 membros eram nomeados vitaliciamente pelos censores entre os ex-magistrados. Controlava a política externa, as finanças públicas, o calendário litúrgico e a distribuição das províncias. Não votava as leis (isso cabia aos comícios), mas a sua auctoritas — a autoridade moral — era tão vinculativa que opor-se-lhe era um suicídio político.
A sede física do Senado era a Cúria — um edifício funcional, não monumental, que ao longo da história republicana foi destruído e reconstruído várias vezes. O edifício que vemos hoje não é a Cúria original, mas a terceira versão, iniciada por Júlio César e completada por Augusto em 29 a.C.
A Cúria Júlia: arquitectura
O edifício está extraordinariamente bem conservado por uma razão precisa: foi transformado em igreja no século VII d.C. (San Adriano al Foro), o que impediu a demolição para recuperação de materiais. Só em 1937, sob Mussolini, as transformações medievais e barrocas foram removidas para restituir ao edifício o seu aspecto romano.
Dimensões: cerca de 27 × 18 metros em planta, com uma altura de cerca de 21 metros.
Exterior: a fachada actual é uma reconstrução moderna (os tijolos originais estavam cobertos por placas de mármore). A porta de bronze visível é uma cópia — o original encontra-se na Basílica de São João de Latrão.
Interior: o aspecto interior é o que mais se aproxima do original. Os três degraus em cada lado comprido eram os assentos dos senadores — não havia cadeiras; os senadores sentavam-se nestes pódios elevados (provavelmente com almofadas trazidas de casa). O pavimento é o mais notável: um opus sectile em mármores policromáticos — verde de Caristos, vermelho da Numídia, amarelo da Numídia, pórfiro egípcio — ainda quase completamente conservado. É um dos melhores exemplos de pavimentação romana conservada in situ.
A abside: a Cúria Júlia tinha uma abside no fundo abrigando uma estátua da Vitória sobre um globo, oferecida por Octaviano após a sua vitória em Áccio (31 a.C.). Esta estátua tornou-se o centro de uma das últimas grandes batalhas religiosas da Antiguidade: em 384 d.C., o prefeito pagão Símaco e o bispo cristão Ambrósio confrontaram-se pela sua remoção. Ambrósio venceu — a estátua foi definitivamente retirada pelo imperador Teodósio.
O procedimento senatorial
A Cúria era o edifício, mas o Senado reunia-se também noutros locais — a lei romana exigia que o Senado se reunisse num locus inauguratus, ou seja, um espaço consagrado. Os templos eram locais habituais.
As sessões começavam antes do meio-dia e tinham de terminar antes do pôr do sol. O presidente da sessão (cônsul ou, em época imperial, o próprio imperador) apresentava uma relatio — a questão a deliberar. Os senadores votavam fisicamente deslocando-se para lados opostos da câmara (pedibus in sententiam ire — «ir com os pés para a sua opinião»).
Cada senador podia falar na ordem da sua dignidade: primeiro os consulares (ex-cônsules), depois os praetorii, depois os quaestorii, depois os pedarii (os mais jovens, que geralmente não falavam mas simplesmente votavam). A obstrução era fisicamente possível: Catão, o Jovem, era famoso pelos seus discursos de comprimento extraordinário destinados a esgotar o tempo disponível.
A estátua da Vitória
Em 31 a.C., a batalha de Áccio pôs fim às guerras civis romanas. Octaviano ofereceu à Cúria uma estátua da Vitória sobre um globo saqueado do Egipto. Dois painéis em relevo com a Vitória sacrificando num altar foram colocados nas paredes como decoração permanente. Estes relevos — os chamados Plutei Traiani, hoje nos Museus Capitolinos — mostram cenas do Foro de época imperial, com um imperador conduzindo um sacrifício e perdoando dívidas aos cidadãos.
A Cúria hoje
O interior da Cúria Júlia está aberto aos visitantes e é um dos espaços mais imersivos do Foro Romano. O pavimento de opus sectile, os degraus laterais e as janelas altas criam uma atmosfera extraordinariamente evocadora. Do lado este expõe-se uma cópia da estátua da Vitória (o original está perdido); nas paredes são visíveis os moldes dos Plutei Traiani.
Rostros e Cúria no sistema do Foro
Os Rostros e a Cúria não eram edifícios isolados — eram os dois pólos de um sistema espacial bem definido. A Cúria abria directamente para o Foro; em frente dela, os Rostros constituíam a tribuna a partir da qual se falava ao povo. Entre estes dois edifícios decorria a vida política de Roma: dentro da Cúria, o debate entre as elites; lá fora, nos Rostros, a comunicação ao povo.
Os Comícios — o espaço aberto em frente da Cúria onde os cidadãos se reuniam para votar — eram o terceiro componente deste sistema. Com o fim da República e o advento do Império, esta assembleia deixou de ser verdadeiramente deliberativa, mas o seu espaço físico permaneceu.
Como visitar os Rostros e a Cúria hoje
A Cúria Júlia: entra-se a partir do interior do percurso do Foro Romano. É um dos poucos edifícios do Foro em que o acesso ao interior é permitido. Reservar 20–30 minutos para uma visita adequada. O pavimento de opus sectile merece atenção especial.
Os Rostros: o podio é visível do exterior do percurso, mas é possível aproximar-se seguindo o caminho principal. O lado posterior (em direcção ao Capitólio) é o mais acessível.
Visite os Rostros e a Cúria com motorista privado
Os Rostros e a Cúria estão no centro do Foro Romano, incluído no bilhete combinado Coliseu–Foro–Palatino.
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Perguntas frequentes
O que são os Rostros? Os Rostros eram a tribuna dos oradores do Foro Romano, construída na sua posição actual por Júlio César e completada por Augusto. O nome deriva dos esporões (rostri) dos navios inimigos fixados à estrutura após a vitória de Âncio em 338 a.C.
O que se pode ver dentro da Cúria Júlia? O interior da Cúria Júlia é um dos espaços melhor conservados do Foro Romano. Podem ver-se o pavimento original de opus sectile policromático, os degraus laterais onde se sentavam os senadores, os moldes dos Plutei Traiani e uma cópia da estátua da Vitória.
A Cúria Júlia é o edifício original? O edifício actual é a terceira versão da Cúria, iniciada por Júlio César e completada por Augusto em 29 a.C. Foi preservada da demolição por ter sido transformada em igreja (San Adriano al Foro) no século VII. Em 1937 foi parcialmente restaurada para recuperar o seu aspecto romano.
Quantos senadores cabiam na Cúria? Em época imperial o Senado tinha cerca de 600 membros. Os três degraus em cada lado comprido da Cúria podiam acomodar esse número, com senadores sentados em filas.
Onde ficavam os Rostros originais? Os Rostros mais antigos situavam-se no ângulo noroeste do Foro, em frente da Cúria. Júlio César deslocou-os para a sua posição actual (em frente do Templo de Saturno) como parte da sua reorganização do Foro.
Artigo n.º 53 — TIER S — MON-03 Foro Romano + Palatino Tipo: HISTÓRIA Palavras: ~2.400